Chega um ponto em nossa existência que nos damos conta de si mesmos. Não nascemos sabendo que existimos e tão pouco isto se torna um fato nos anos seguintes. Simplesmente vamos vivendo um dia após o outro, acumulando experiências e criando rotinas para a nossa... rotina. Questões essenciais mexem muito com o ser humano, pois elas vão ao âmago da principal pergunta: porque estamos aqui? Refletir sobre isso pode gerar instabilidade e medo na grande maioria das pessoas (ao menos das que tem vontade de pensar), pois terão que reanalisar suas crenças, dando-se conta que estão, no fundo no fundo, sozinhas. Tudo parte de você e apenas de você aceitar isso ou aquilo como verdade. Alguns não conseguem e voltam a se apoiar em crenças prontas ou basear suas decisões sobre as costas de alguém, pois é mais seguro assim viver, a responsabilidade não é a mesma. Então, para domar as questões que mexem com o nosso ser e sua liberdade, alguns adotam os pacotes prontos de rotinas diárias e perspectivas de futuro “vendidos” pela sociedade e seus costumes, aqueles que ninguém sabe ao certo como surgiu, se são válidos e se nos tornarão felizes, mas é o que a maioria faz e por isso torna-se válidos. Assim, o que fazer amanhã, quem me tornar, o que serei no futuro, rirão de mim, etc, etc, essas questões serão tapadas, bastando tornar-se mais um cidadão, mais um consumidor: quanto mais coisas adquirirmos, quanto mais pessoas nos admirarem pelo que temos, ninguém nos reprimirá, nossos futuros estarão garantidos e teremos alcançado a felicidade, seguindo aquela rotina pronta e deixando de lado questões sobre “quem sou” no sentido original, afinal, hoje em dia “quem sou” é sinônimo de “o que tenho” e “quanto tenho”.
Se as pessoas se tornam como máquinas e não se dão conta disso (algumas são conscientes mas precisam seguir as “regras” sociais), como é que elas adquirem experiência? Ou melhor, o que é a experiência? Voltamos ao início da reflexão: fundir-se a rotina ou estar nela com os olhos abertos? A vida é uma acúmulo constante de experiências, para tudo que escutamos, olhamos ou sentimos, a todo o momento estamos vivenciando experiências que podem mudar quem somos ou, mais profundamente, nos darmos conta de si mesmos: quem sou? No que estou me tornando? O que quero para mim? Estou buscando aquilo que eu desejo? O que desejo? O que desejo sou eu que quero ou é um desejo de outro? Estou seguindo minha essência e vontade ou sou como os outros querem que eu seja? Desde crianças acumulamos vivências e isso se dará ao infinito. Cada uma delas se torna uma experiência em que ou aceitaremos (seja boa ou ruim) e cresceremos ou a ignoraremos, escondendo-a nas gavetas profundas da memória e interrompendo uma porcentagem importante para o amadurecimento, para a independência de si. O aprendizado é subjugado, deixado de lado e uma lacuna, um vazio para a formação de nosso caráter e de nossa bagagem de atitudes, é aberta. Como qualquer sistema tem sua falha, aquelas rotinas prontas e perspectivas de futuro ditadas pela sociedade um dia mostrarão suas próprias lacunas e, somando-se àquela lacuna de nosso ser em particular, surgirá fagulhas de infelicidade, de angústia, que por sorte não se tornarão em depressão, dependendo da força mental de cada pessoa que isso viver.
Contudo, a sociedade absorve tais máquinas, lhes oferecem as vezes oportunidades que aqueles que vivem uma vida mais próxima a seus próprios princípios não conseguem. Por vezes, a própria vida e seu mistério infinito com suas ações invisíveis, oferece diversas oportunidades para as máquinas tornarem-se novamente humanas, ou pelo menos... um pouco mais humanas. O interessante que não é necessário agradecer e em alguns momentos as pessoas não se dão conta das oportunidades que lhe batem a porta: ou as ignoram ou as aceitam, mas julgando-se merecedoras quando nunca foram. Em outras palavras, viver uma vida por si mesmos ou seguir o pacote pronto vendido pelos costumes dá no mesmo, afinal, máquinas e humanos convivem juntos há um bom tempo. Dizia a música “O que você vai ser, quando você crescer....” – Legião Urbana.
Denis Jacintho

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